Repensando 23

14 de novembro de 2018
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14/11/2018  | 07:45

                                                                                         Rendas de Sombra                                                                                                               

 

Aula das 14h, a mais incômoda do dia. O bom professor  padre Luz cita letras e palavras introdutórias ao curso de hebraico. O aluno se faz de desentendido, mantendo o olhar fixo no tamarindeiro do pátio.

Juraci, vizinho de carteira, pergunta como se pronuncia a letra Dalet. O colega responde que é Dalet mesmo. E continua a ler e ouvir o  tamarindo. Vê também as imagens sugeridas pela fantasia, a partir das rendas de sombra que a fronde da árvore deixa o sol desenhar no chão de tijolo umedecido pelas chuvas que têm caído fartas.

Muitos passaram sob seus galhos e lhe tocaram o tronco enrugado. Antônio Thomaz, padre, poeta e príncipe, o teria plantado. Será verdade? Uma árvore assim tão grande já foi semente um dia? O evangelho sugere que sim.

Outro padre lembrou que, quando aluno, fez um poleiro no entroncamento dos galhos para ali criar um papagaio. Que palavras diria um papagaio alfabetizado por seminaristas? Os papagaios, talvez você venha a saber: pertencem à ordem  de aves neórnites, neógnatas, de bico robusto, grosso e recurvo, língua carnuda e maxila superior móvel; pés zigodáctilos, adaptados para preensão, metacarpo coberto de escamas rugosas e dedo posterior externo não reversível. Vivem nos campos e florestas, alimentando-se de frutas. Seus similares chamam-se araras e periquitos. Sofrem de distúrbio de linguagem que consiste na repetição mecânica de palavras ou frases vazias de sentido. Ao termo psitacismo atribui-se o processo de aprendizagem apenas por memorização.

Mas que papel desempenha no coração do pátio o tamarindeiro sombrio? Não lhe vem como responder a esta interrogação porque o professor acaba de lhe dirigir uma pergunta que, distraído, não entendeu bem o que fosse. Mas sua presença de espírito lhe recomendou responder: àlef, bèt, guimel. Os colegas riram. Nem sempre a presença de espírito resolve. Era outra coisa que queria saber o mestre. Este, bondoso, balançou a cabeça, e passou a outro a pergunta, ficando a impressão de que entendera o aluno.

Este não deu maior importância à chacota da turma. Os amigos ririam se soubessem que o colega estava a conversar com o tamarindeiro. Se soubessem que a velha árvore lhe infundia no ânimo algo do passado que enternece o presente. Se soubessem que o tamarinheiro tem uma fronde que desenha, no chão úmido, sombras rendadas de sol. Algo semelhante a si e às palavras hebraicas em busca de memorização: àlef, bèt, guimel.

 

Escrito por: José Rosa Abreu

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