O relógio e o tempo
A cada minuto, menos tempo

A pessoa à minha frente está ansiosa. De vez em quando suspende a conversa e olha o relógio. Logo volta a falar. E repete que deve tomar o ônibus para o interior. E que, a cada minuto, ela dispõe de menos tempo. O tempo. Em silêncio, relembro um autor francês, Etienne Klein. Ele diz que o tempo é uma máquina de reproduzir, repetidamente, novos instantes. Ou que o tempo é um motor íntimo a repetir que o futuro se torna primeiro “presente”, depois “passado”. Ou ainda uma força secreta pela qual desliza o amanhã até se tornar hoje.

Nesse processo reside a duração que Klein considera algo misterioso. A duração seria para o tempo o mesmo que o comprimento é para o espaço. Mas a duração nunca nos é dada de uma vez só. Ela é feita de instantes que se sucedem uns aos outros, sem jamais coexistirem. Alguns filósofos chegam a pensar que o tempo não existe de modo autônomo, independente do homem que o constrói. A este respeito Klein cita o alemão Immanuel Kant: “O tempo não é senão uma condição subjetiva de nossa (humana) condição e não é nada, em si, fora do sujeito”.

Precisamos ter consciência de que somos o produto tardio de um universo que passou grande parte do seu tempo existindo e evoluindo sem nós. Algo assim: o universo tem entre 13 e 14 bilhões de anos; a terra aconteceu há cerca de 4,45 bilhões de anos e o surgimento do homem data de menos de 2 milhões de anos. Somos, pois, o produto de um universo que passou grande parte de seu tempo existindo e evoluindo sem nós. Como o terá feito, isto é, como terá se desdobrado para durar 13,7 bilhões de anos durante a época em que o homem ainda não estava aqui? E se o universo depende de nós e de nossa presença para fazê-lo existir, como pode ter ele existido sem que fôssemos seus contemporâneos? Você saberia responder?

Sou tentado a pensar, talvez como você, que tudo isso é muito complicado. E que o tempo nada mais é, além desse falatório. A afirmação tem lá sua razão de ser. Mesmo assim, talvez seja necessário ver as coisas bem mais de perto. E uma pergunta se impõe: haverá tempo, para outras perguntas? Que perguntas, pergunta a pessoa à minha frente.

José Rosa Abreu Vale