Fake News de hoje é o Boato de Antigamente

Essa história de que Fake News é coisa moderna, que apareceu depois do surgimento das redes sociais é uma balela. O Fake News sempre existiu. Acontece que não tinha esse nome estrangeirado. O pioneirismo desse tipo de divulgação se deve ao velho e carcomido costume de se espalhar notícias falsas denominado de Boato.

Lembro muito bem que um sagaz e perspicaz político de nossa terra aplicava essa técnica muito antes do surgimento da internet e redes sociais. O instrumento mais adiantado na época era a comunicação pelo rádio, e os boletins políticos que se divulgavam, espalhando pelas ruas da cidade na calada da noite contendo agressões e difamações aos adversários anonimamente.

Mas essas informações no mais das vezes não atingiam a todo o público que se queria alcançar. Era, portanto, a necessária eficácia do Boato para abranger realmente um maior universo de pessoas, pois nada no mundo se espalha mais ligeiro do que um Boato bem elaborado. E, em se tratando de notícia difamatória então tem a velocidade de um vendaval.

Pois bem, numa determinada eleição municipal em Aracati, aconteceu um debate entre os candidatos no auditório do Colégio Marista promovido pelo C.D.L. A um dos candidatos foi feita uma pergunta capciosa com o intuito de prejudicá-lo. A pergunta estava relacionada ao comportamento e a presença escandalosa das prostitutas no mercado público: Qual atitude deveria ele tomar diante dessa pouca vergonha que afrontava as famílias que para ali se dirigiam para fazer suas compras? Naturalmente que a resposta do candidato não poderia ser outra diante dessa situação. Que iria impor a ordem e o respeito ao ambiente e para isso colocaria a polícia para coibir os abusos que porventura estivessem acontecendo.

Essa resposta causou ao candidato em questão, que por acaso perdeu a eleição, um enorme prejuízo eleitoral.

Dois boateiros contumazes a serviço do outro candidato, gravaram a fala do adversário com um pequeno gravador de fita cassete, e munido desse “moderno” aparelho começaram a visitar todos os prostíbulos da cidade que na época não eram poucos.

– Vocês ouviram o que o candidato do partido adversário ao nosso tá dizendo de vocês? Que vocês não vão mais ter o direito de entrar no mercado nem pra comprar o de comer…

– Ele disse isso! Exclamou em uníssono a plateia das meninas reunidas em torno do gravador com os rostos crispados de revolta.

– Disse sim, tá aqui a prova. O boateiro segurando o gravador com a fita editada, onde se destacava a voz do candidato dizendo do procedimento da polícia que iria coibir os abusos, posicionava então o gravador em cima do balcão abrindo o botão a todo volume apertando o start bem em cima da pergunta e a imediata resposta do candidato do partido adversário, dizendo que iria mandar a polícia ao mercado para reprimir a presença das prostitutas no mercado público.

Foi uma revolta “urbi et orbi” em toda zona do meretrício localizada nos arrabaldes e periferias da cidade, onde se concentrava o maior número de moradores e eleitores.

A difusão desse boato se expandiu além do circuito das casas de saliências invadindo a cidade, tomando partido em benefício das mais desprotegidas da sociedade, pois o boato cresce e ganha variáveis e interpretações das mais diversas, além do mais como diz o samba canção, “todo boato tem um fundo de verdade”, como também, quem “conta um conto aumenta um ponto” já diz o ditado popular.

Por Antero Pereira Filho