O FILÓSOFO
TIÃO VENTINHA

 

Quando o Cine Moderno, atualmente Teatro Francisca Clotilde, ainda era explorado pelo circulo operário São José, havia uma espécie de divisão social na sua estrutura física.

Na entrada suntuosa que dava para a Rua Cel Alexanzito, onde ficava o salão principal e depois o famoso “curral de espera.” Somente entravam as pessoas de nível socialmente mais elevado da cidade. Na parte dos fundos do prédio, na atual Cel. Alexandrino, tinha uma pequena entrada e um estreito corredor, onde os frequentadores do cinema de origem mais humilde passavam espremidos para se amontoarem num pequeno salão, sentados em bancos sem encostos uns ao lado dos outros.

Era por essa entrada e nessa parte do cinema quase em cima da tela que ficava a SEGUNDA.

O salão do cinema era dividido no meio. Na parte da frente ficava a turma da segunda que pagava mais barato e entrava de qualquer maneira; calça, calção, com camisa e sem camisa, Venâncio com sua carrocinha de vender pipocas. Além do mais não havia censura.

A parte nobre do cinema que ficava na Rua Cel Alexanzito com sua bela entrada. Tinha um vasto salão de espera, além do curral e a parte mais privilegiada do cinema: Lá em Cima. Na parte superior e onde ficava o projetor movido a carvão mineral.

Uma grade de madeira que dividia o cinema, também separava socialmente as pessoas. No entanto, as proibições eram destinadas a todos quanto a certos comportamentos. Principalmente fumar. Entretanto a vigilância era mais forte e enérgica em cima da turma da segunda.

Tião Ventinha, engraxate que trabalhava na porta principal do mercado velho, lado sul, assíduo frequentador do cinema, nunca se conformou com aquela proibição, pois parecia que ela só era dirigida para a turma da segunda, da qual ele era um membro famoso, juntamente com o vereador Chico Alemão – que nunca deixou de fumar seu inseparável porronga.

Numa noite de domingo, 2º sessão, Tião Ventinha foi abordado por um fiscal lhe proibindo de fumar durante a projeção. Olhando com ar de superioridade ao fiscal disse com sua voz fanhosa:

– SE OS EDUCADOS NÃO FUMAREM NÓS NÃO FUMAREMOS.