O Rondon está de Volta   

     13 horas e 15 minutos em Reriutaba, município não distante de Sobral. O sol está quente, quentíssimo. O calor é tórrido,a luminosidade sufocante.  Árduo é o esforço de caminhar até a sede do Projeto Rondon onde alunos da UVA em Sobral desenvolvem atividades acadêmicas em favor de famílias carentes da área rural.

Os universitários são movidos pelo ideal rondoniano de compartilhar o que aprenderam nos bancos escolares com seus compatriotas rurais reduzidos à condição de sem: sem meios de subsistência, sem dentes bem tratados, sem visão e audição normais, sem medicamentos apropriados às doenças de que sofrem e sem o direito de participarem efetivamente na vida política e social.

      Encontro os jovens no momento em que acabam de almoçar. Parecem sonolentos e quase sem ânimo para entabular discussões acaloradas, como é comum entre estudantes. Proponho-lhes que descrevam fatos observados no contato com as famílias visitadas. Com certa relutância, lembram algumas situações nos campos da enfermagem, do direito, da odontologia e da administração. E destacam questões ligadas ao contexto sociocultural em que vegetam numerosos familiares.

     Reriutaba, com suas 24 mil almas, dispõe de um PIB de 26 milhões de reais repartidos desigualmente à razão estatística de R$ 1.100,00 per capita. A economia dependia então, em boa parte, das contribuições do INSS, do bolsa família, do SUS e do FUNDEB. Os estudantes percebem com nitidez que  a distribuição material dos bens é insuficiente para gerar razoável qualidade de vida na zona rural de um município com IDM situado em 160º lugar no Ceará e índice de desenvolvimento humano que remete à 3.720ª posição do ranking dos municípios brasileiros. 

Tratava-se de uma situação bastante crítica. Além disso, ficava para os alunos o sentimento de que, tudo somado, eles tinham ensinado algo ou prestado algum serviço à população. Ao mesmo tempo achavam que dela tinham recebido, em contrapartida, lições de resiliência, entendimento, sensibilidade, trabalho, solidariedade sob formas diversas e criativas. Tiveram até a franqueza  de dizer que levarão de volta a Sobral alguns questionamentos que podem ajudar seus professores a renovar visões estereotipadas.

     Graças ao dinamismo da UVA, observa-se que ressurge no País o sopro que inspirou os criadores do Projeto Rondon.  Oxalá, a ideia prospere à luz de renovado enfoque teórico, do método pedagógico interativo e das práticas que valorizam as experiências locais à luz do que sugere, por exemplo, o Programa Universidade Solidária, através da prática  DELIS, ou seja, do programa de  desenvolvimento, local, integrado e sustentável.